Sexta-feira, 2 de Março de 2007

Correio Electrónico @ II

Caros e assíduos leitores:

Com toda esta trabalheira, tenho-me esquecido de publicar a resposta ao e-mail da Matilde... Aqui vai!

NOTA- Consultar post "Correio Electrónico @", datado de 13.Fevereiro.2007

"Lisboa, 4 de Março de 2007


Cara Matilde

 

Em primeiro lugar, e antes de mais, deixa que te agradeça pelo teu tão tocante e-mail!
Não incomodas nada, muito pelo contrário: é sempre um prazer saber que cada vez mais jovens leêm, e ainda mais quando se trata das nossas próprias obras!

Deixa também que te felicite: do pouco que escreveste, consegui apurar que és uma rapariga com talento! Não o desperdices, amiguinha!


Referiste no teu e-mail, entre outros aspectos, a extensão (quase) absurda da obra...É assim mesmo, Matilde, quando me ponho a escrever, ninguém me pára! Claro que tenho que concordar contigo (e até confessar que me deixei entusiasmar demais!). Admito que a obra possa não ser muito acessível a um público muito gera... É preciso, de facto (e é essa uma das principais lacunas nas minhas obras), ter alguma instrução e, cá está, o bichinho da leitura para se aventurar numa obra deste tipo e entendê-la (quase) na íntegra.


Apontaste também a longa descrição d’O Ramalhete, logo nas primeiras páginas e, indirectamente, o porquê de tal começo para o livro, quando poderia, como tu própria (e muito bem!) disseste, ter escolhido um episódio, digamos assim, mais excitante e empolgante... A resposta, nem eu a sei! Calhou que fosse assim, minha querida, flutuou do meu cérebro directamente para o papel. E ficou, após algumas (poucas) modificações.

 

Chegámos ao cerne da questão, e devo, sinceramente, saúdar-te: poucos seriam capazes de, na tua idade, chegar a tão brilhante (e óbvia, ao mesmo tempo!) conclusão... É verdade, cara Matilde, quando escrevi Os Maias, tentei retratar o mais fielmente possível a sociedade de minha altura, recorrendo, para tal, aos meus personagens, e às características que lhes atribuí. Os Maias é uma obra em que criei, ainda mais importante que o espaço físico, um forte espaço social, em que “desfilam” imensas fihguras que caracterizam a sociedade lisboeta, mais precisamente, a elite, burgesia e alta aristocracia decadentes e corruptas. Tudo isto se desenrola, practicamente, até ao fim da obra, e fiz esta crítica tomar proporções gigantes em episódios muito conhecidos, como o jantar no Hotel Central (onde o leitor fica a par das limitações da mentalidade de elite lisboeta); as corridas de cavalos (onde é dada a perceber a mentalidade provinciana); o jantar nos Gouvarinhos (onde fiz que se criticasse a mediocridade e superficialidade dos dirigentes [governo]); o episódio do jornal “A Tarde” (onde desmascarei a incompetência, o parcialismo e o clientelismo dos jornalistas da minha altura) e, entre outros, o passeio final de Carlos e Ega em Lisboa, que traduz a degradação progressiva (irremediável!) da sociedade portuguesa, para a qual não se prevê nenhuma saída.

 

Entende, pequena, não é que a sociedade não tenha evoluído desde lá até agora! Não imaginas como te enganas ao sugerir tal coisa... na minha época não tínhamos metade do que vocês têm! A sociedade desenvolveu-se, sim, a nível científico e tecnológico, da educação e saúde,  mas os problemas que aponto na obra continuam (e, pelos vistos, continuarão sempre) presentes, pois os indicadores, chamemos-lhes assim, que usei são muito intemporais.

 

Espero que te tenha esclarecido, Matilde, e obrigada pelo teu e-mail!

 

Cumprimentos

 

José Maria Eça de Queiroz"

P.S- Toda esta informação está disponível em: Lyon de Castro, Francisco (editor); Eça de Queiroz – Os Maias; Apontamentos Europa-América; 1989; Publicações Europa-América.

 

Etiquetas:
Por José Maria Eça de Queiroz às 20:42
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