Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

Correio Electrónico @

Saudações, leitores cultos e sérios!

Nem sabem o que se passou! Estava eu a criar o meu e-mail (!) quando, de súbito e passados 5 segundos, recebo logo uma mensagem, que me deixou muito feliz! Eis que a deixo convosco, para, mais tarde, responder à doce rapariguita, que agora estou ocupado.

“Porto, 13 de Fevereiro de 2007

Caro Sr. Eça de Queiroz


O meu nome é Matilde e tenho 15 anos. Sou estudante do ensino secundário e resido no Porto. Gosto imenso de ler e sou bastante curiosa, e essas são duas das razões pelas quais lhe estou a escrever!


Peço desculpa se o estou a incomodar, até porque sei que este e-mail é um em  muitos dos que recebe diariamente, mas não pude deixar de aproveitar a oportunidade da sua passagem pela Terra para lhe apontar e lhe pedir algumas “explicações” relativas à sua obra Os Maias, que há relativamente pouco tempo me foi recomendada pela minha melhor amiga (que diz identificar-se imenso com Maria Eduarda, vá-se lá saber porquê...). Tanto me falou na obra que acabei por ir vasculhar as estantes dos meus pais e lá encontrei a dita publicação: quase 600 páginas, em letra miudinha(!), factor que, confesso, me desmotivou um bocadinho, num primeiro momento.


Cá me enchi de coragem e iniciei, então, a leitura da obra (leitura essa que ficou de parte, por uns poucos de dias, junto com a coragem, que se desvaneceu, de pronto, ao fim da 3ª página de descrição d’O Ramalhete...). Após semanas de desleixo, decidi regressar à leitura, tão sofrida numa primeira parte e ao mesmo tempo tão deliciosa à medida que se avança no enredo. Posso agora dizer-lhe que a sua obra é uma espetacular leitura de férias, e adoro o tom despreocupado que imprimiu nalguns personagens, como João da Ega (o meu favorito!). Gostava também de lhe dar os parabéns: é preciso ser muito bom para escrever algo assim, embora eu, se fosse a autora, não começasse o livro com uma descrição como a d’O Ramalhete, um pouco enfadonha (desculpe!) e longa, que não cativa muito o leitor mais desatento... Começá-lo-ia, pois, por uma cena que captasse toda a atenção de todo e qualquer leitor, desde o jovem de 13 anos ao velhote de 70, desde o primeiro momento, como, por exemplo, o suicídio de Pedro.
 
Mas deixemo-nos de dissertações!

Há, na sua obra, um aspecto que me deixou um pouco confusa e, até, pensativa, que foi o facto de conseguir, nesta enorme descrição da sociedade de época que são Os Maias, reconhecer traços da sociedade onde vivo!

 É verdade: ainda se pode encontrar, na sociedade actual, a maior parte das características que o senhor destaca nos seus “companheiros”, nomeadamente, uma certa limitação de horizontes ou tacanhez, ou seja, aquele tipo de pessoas que perante um determinado acontecimento/assunto não conseguem ter uma perspectiva esclarecia/adequada; um pouco de diletantismo, ainda (presente naquelas pessoas que se entregam à cultura/arte/estudo por puro prazer, mas que, no fundo, são inúteis à sociedade, em termos prácticos) e, como não podia deixar de ser, um certo embevecimento por tudo o que é estrangeiro e desprezo pelo “produto nacional”, e consequente mania de imitar o estrangeiro...

Continua a poder identificar-se tudo isto na sociedade de hoje, o que me faz pensar: será isto um “indicador” de que o nosso país não se desenvolveu lá muito desde o seu tempo até ao meu?

Cordiais cumprimentos*
 
Matilde Dias
 
P.S- Desculpe mais uma vez, foi mais forte que eu!”

Podem encontrar toda esta informação em: Lyon de Castro, Francisco (editor); Eça de Queiroz – Os Maias; Apontamentos Europa-América; 1989; Publicações Europa-América
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Por José Maria Eça de Queiroz às 20:22
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